terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Resenhando: ''Segundo a Lei da Arma'', José Casado Alberto

Olá, vocês aceitam uma dose de bourbon? Não? Que pena, mas não importa, tenho certeza que se você não bebe, você lê, e por isso te relato que acabei de chegar do deserto do Novo México, acho que é por isso que ainda estou com a calça empoeirada depois dessa agradável leitura. O livro ''Segundo a Lei da Arma'' do autor José Casado Alberto, foi a minha última leitura e vou compartilhar com vocês os momentos que vivi na minha ida até a cidade dos foras da lei, lugar dominado pela lei da arma, repleto de seus odiosos grupos rivais e cercado de muita areia, ervas secas e montanhas rochosas, um verdadeiro deserto de planícies áridas. Venha comigo conhecer isto tudo...


Título: Segundo a Lei da Arma
Autor: José Casado Alberto
Publicação: 2015
Editora: Chiado
Gênero: Ficção
Páginas: 203


Sinopse: O Corvo sobrevoava o deserto do Novo México. Atraído pelo chamamento do sangue, chegou a uma solitária montanha pintada em tons alaranjados. Abaixo, três figuras: um fora da lei, um ranger e um caçador de recompensas — três representantes do melhor e do pior que a espécie humana tem para oferecer — dançavam uma dança tão antiga como a própria existência: a dança da morte. Texas Red. Filho perdido do povo Navajo e criminoso sanguinário, produto das tragédias que assolaram o seu povo. Olhos-Azuis. Personificação estoica do velho oeste e da ideia de que as leis apenas existem porque homens poderosos asseguram a sua existência. Forasteiro de Negro. Sádico e desprovido de quaisquer escrúpulos. Ele cospe na face das leis da sociedade e obedece apenas ao seu depravado e rígido código moral. No final do dia, estes três homens demonstrarão que quando o homem despe as ilusões efémeras da sociedade apenas uma lei sobrevive — A Lei da Arma.


O enredo representa um verdadeiro duelo entre três personagens de distintas origens. John Redding, mais conhecido como Texas Red, índio frio e sanguinário, respeitado e perigoso fora da lei, procurado em 3 estados, que tinha objetivo de soltar o seu povo; Olhos-Azuis, ranger, inimigo de Texas, que segue seus rastros em busca de seu objetivo quase completamente obcecado, exterminá-lo; e Forasteiro de Negro, homem de bons argumentos, intimidador, que sabia convencer e impor suas próprias regras. 

As primícias da trama exibe a capacidade que a mente humana possui em muitos pontos. A confecção de planos, a perpetuação de maldades, a exposição de argumentos e os atos para se alcançar os seus objetivos. 

''Todos temos que responder a uma entidade superior. É assim a lei da vida, para o bem
e para o mal...'' Trecho de ''Segundo a Lei da Arma''. Capa e contracapa em destaque.
''Amanhã, quando tivermos o dinheiro, eu, tu e o Ira matamos os outros e dividimos o dinheiro a três,'' informou, de repente, o índio, quebrando o silêncio contemplativo que reinava entre ambos. Tão certo de si mesmo, tão pragmático nas suas palavras; um assassino frio, livre de ilusões moralistas.''

O livro traz para o leitor uma verdadeira rixa dos foras da lei com derramamento de sangue suscitado por aqueles que faziam mais rapidamente o uso dos gatilhos de seus brinquedos preferidos, seus bebês metálicos. Aquela era a lei do velho deserto, e Texas Red, o cara que levava vermelho em seu nome e que talhava no cabo de seu revolver a numeração exata de suas vítimas, era o mais temido entre todos. Para quem ama tramas com mortes sangrentas praticadas sem piedade, o livro é uma boa indicação. Porém, muito além disso, há nas entrevias, estruturas de maior mérito ao leitor.

''Armado com o seu fiel revólver de longa data, marcado vinte vezes que tinha sido usado para fins mortais, Red tomou a cabeça submergida do ex-professor como alvo e engatilhou a arma com o polegar (...) Premiu o gatilho e apagou a pouca luta que ainda restava no velho reverendo (...)''

Algumas falas são escritas pelo autor do modo que são faladas pelos personagens. Decerto é uma caracterização de sotaques, entende-se, mas apura-se um grau de dificuldade para manter uma leitura fluente de início, causando alguns entraves na leitura destes diálogos. Entretanto, esta caracterização torna-se mais adaptável com o decorrer da história e o leitor observa que realmente é necessário o seu uso. 

''E já'gora, desde quand'e qu'um mestiço é d'alguma forma melhor qu'um índio?'' Perguntou Frank, tomando, então, Red como alvo de sua fúria branca. ''É 'inda pior,muito pior. Eu cá digo qu'a culpa é desses rapazes (...)''

A lombada do livro. Uma publicação da Chiado Editora.

Mas José Alberto segue firme com uma escrita bonita e apreciável, variadas vezes em tons poéticos e atestadas por pequenos trechos pensativos, como se fossem provérbios. Sua escrita é sublime.

''Era uma mulher já perto dos sessenta, cuja beleza passada teria sido, sem dúvida, alvo de grande admiração (...) O tempo nunca interrompeu a sua jornada (...) tinha colhido dividendos de forma implacável, roubando o ouro dos cabelos (...) trocando suavidade por rugas (...)''

A base da história é a comum utilizada em enredos de faroeste, mas seus personagens são bem originais. O ambiente tem os seus bares, prostitutas, bebidas, cavalos e corvos. O autor assinalou grandiosamente cada momento e personagem, destacando suas emoções, expressões, falas e pensamentos. Os protagonistas eram homens rancorosos, sem demonstração de afetos - exceto em pouquíssimos casos - e exibindo o lado masculino e dominador, suplantavam as dores do dia a dia longe de suas famílias. Houve também demais personagens, todos muito bem definidos, no enredo. O meu preferido? Ah, o meu preferido sabe voar...

''Sem querer fazer comparações a outros meios de cultura e entretenimento, mas já acareando de forma sutil, relato que recordei os filmes Young Guns (Jovens Pistoleiros), filme de faroeste estadunidense de 1988, dirigido por Christopher Cain. O roteiro, de John Fusco, é inspirado na Guerra do Condado de Lincoln, ocorrida em 1878 no Novo México, Estados Unidos e também de sua continuação, Young Guns II (Jovens Demais Para Morrer), de 1990, com trilha sonora de Jon Bon Jovi. Em muitos momentos do livro, voltei nos tempos em que não desgrudava o olhar da TV ao ver os filmes citados.''

O livro é apresentado ao leitor com 3 divisões - sem contar com introdução e término -, e todos tem 4 capítulos não tão extensos. Em cada uma dessas partes acompanhamos os passos dos personagens centrais. No primeiro, o narrador em 3ª pessoa traz os traquejos de Texas Red. No segundo é a vez de Olhos-Azuis ser apresentado ao leitor. E para finalizar, Forasteiro de Negro toma a frente e tenta fechar com chave de ouro a obra de José Casado Alberto. Digo ''tenta fechar'' porque na verdade o encerramento da obra fica por conta de um outro elemento bem importante que atrai, sem dúvida, as mais vastas interpretações daquele que lê. É possível notar que na verdade, os personagens principais, são inimigos distintos mas de características e objetivos equivalentes. Talvez nem os próprios Red, Olhos-Azuis e Forasteiro de Negro soubessem disso, mas a equipolência de seus gestos se faz perceptível.

Última parte do livro. O início dos capítulos finais.

O material da Chiado Editora mais uma vez fez a diferença. É bonito, assim como a capa do livro e suas cores utilizadas de maneira mais do que correta. O título do livro a acentuar os acontecimentos da história faz jus à sua escolha.

A lei da arma avoluma a euforia do leitor nos últimos momentos. A empreitada de Olhos-Azuis encontra-se ao objetivo de Texas Red em uma de suas investidas, ocasionando o início de um desfecho muito bom.

''Disparou e falhou. Puxou a alavanca, expelindo o cartucho vazio; disparou e falhou novamente. Rosnou de frustração ao ver, através da mira da arma, os três cavaleiros cada vez mais próximos. Respirou fundo e tentou extinguir o tremor nervoso que se lhe tinha apoderado das mãos. Exalou... e premiu o gatilho! Com sucesso, atingindo um dos atacantes no ombro. Voltou a esconder-se entre os baús de dinheiro (...) Conferiu de imediato a elevada mortandade produzida por aqueles breves minutos de tiroteio (...)''

Em todos os trechos onde os personagens centrais estanciavam por algum momento, o autor utilizou um elemento que certamente passa desapercebido pela maioria dos leitores. Em suas jornadas eles se depararam com crianças. Elas, retratadas algumas vezes no contexto, podem simbolizar a esperança de dias de paz entre as raças ou mesmo a continuidade da disputa entre elas. Crianças são seres puros e inocentes mas o tempo não é capaz de mantê-las assim, não há garantias de que suas almas não se perderão no meio de tanto ódio da raça.

O final do livro é o ponto mais soberano da obra, nem tanto pelos acontecimentos, sim pela visão grandiosa que o autor rege. Ele solidifica todo o seu talento de forma poética e formosa.

''A verdadeira diferença... a única característica que nos separa de uma besta, é a nossa palavra. É o facto de podermos escolher entre mentir ou falar a verdade (...) Quando fazemos uma promessa temos o poder de a tornar realidade, de a tornar poderosa, ou de a roubar de qualquer importância. A resposta é uma e uma só: O poder da Palavra.''
''Na natureza os mais fortes, os mais rápidos, os mais adaptáveis sobreviviam. Os restantes
pereciam perante a escassez do mundo natural.'' Trecho da obra.
''No mundo dos homens, estes vivem como verdadeiros corvos em busca de carne e sangue, seguindo objetivos e instintos. Nós, humanos, agimos como corvos. Às vezes temos pelugens negras, carregamos dentes dentro dos bicos, sangramos um doce e convidativo aroma e somos atraídos por ele, líquido vermelho vivo a jorrar pelo chão ao nosso próprio término. E acredite, isto sempre nos deixa certos do nosso cumprimento do dever. Tudo, Segundo a Lei da Arma. Enquanto tudo se passa, o Corvo observa os seus semelhantes. Ele aprecia a cena do alto do seu poleiro.''

O epílogo é inteligente, vocês precisam ler esta obra. Eu recomendo ''Segundo a Lei da Arma'', de José Casado Alberto e classifico a minha leitura com 4 estrelas. Um livro bem escrito, bem desenvolvido e de importantes advertências sobre a manipulação de nossas ambições.



Para vocês que querem adquirir a obra, cliquem nos links ao início da resenha. Para conhecerem melhor o autor do livro, clique aqui e veja a matéria que o Marcas Literárias liberou após o recebimento do livro. Agradeço ao José Alberto pela confiança e me coloco a disposição para ler outras obras suas, que certamente serão tão boas quanto esta.

E aí, agora vocês entendem o motivo das minhas calças estarem tão empoeiradas? Depois de ficar no meio de toda essa rixa de Red, Olhos-Azuis e Forasteiro de Negro não seria fácil chegar em casa todo engomadinho, não é mesmo? ''Segundo a Lei da Arma'' vale a pena ser lido por vocês e fazer parte das suas estantes.

Deixem seus comentários aqui e digam o que acham desse livro do amigo José Alberto.

Um forte abraço e até a próxima.


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11 comentários:

  1. A forma que você elaborou essa resenha foi muito criativa. Senti pelo início dela que você esteve no local e voltou com sua calça empoeirada.
    Diverti muito com suas palavras. Parabéns!!! Você é um excelente resenhista!

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    1. Fernando, de novo te agradeço pelo elogio. Você é um mestre e receber estas palavras de você, é uma honra. Valeu!

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  2. Parabéns pela resenha Leonardo. Aliás tu tá se especializando nisso. Em breve tu será um especialista. Abraço.

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    1. Valeu Luciano, teus elogios incentivam as resenhas de próximos livros.

      Abraço.

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    2. Valeu Luciano, teus elogios incentivam as resenhas de próximos livros.

      Abraço.

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  3. Gostei da forma que tu conduziu resenha, ligando os pontos para uma maior compreensão. Muito boa. Parabéns!!

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    1. Valeu Geh. Gostas de histórias no velho oeste? Foi muito bom ler este livro.

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  4. Léo primeiramente adorei a foto do moço com livro ficou linda.
    Este livro me fez lembrar meus pais cresci vendo eles lendo livrinhos de faroeste eles eram viciados.
    O livro é bem interessante eu gostei muito, super resenha parabéns!!!!

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    1. Poxa Luh, obrigado pelo elogio, <3

      Que legal que o livro do José Alberto tenha trago boas lembranças a você. Cenas saudosistas são sempre bem-vindas. O livro tem esse poder também.

      Beijos, que bom que gostou.

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  5. Curti a ideia do livro! Depois de ler a saga d'A Torre Negra estou cada vez mais interessada em faroeste e suas vertentes, além d'eu curtir muito livros com finais poéticos.
    Muito boa sua resenha!

    Abraços :)
    Mago e Vidro

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    1. Tisa, bom te rever por aqui. Confesso que não havia lido nada de faroeste ainda mas gostei muito, o autor deve ser parabenizado.

      Abraços.

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:) :( ;) :D :-/ :P :-O X( :7 B-) :-S :(( :)) :| :-B ~X( L-) (:| =D7 @-) :-w 7:P \m/ :-q :-bd