terça-feira, 12 de abril de 2016

Resenhando: ''Dom Casmurro e os Discos Voadores'', clássico de Machado de Assis inovado por Lúcio Manfredi

Amigos e amigas do mundo literário, tudo bem? O Marcas Literárias ficou alguns dias sem trazer resenhas a vocês mas agora é a hora de voltar com novidades. O livro desta vez será ''Dom Casmurro e os Discos Voadores''. A história original ''Dom Casmurro'' é um clássico da nossa literatura e foi escrito pelo grande Machado de Assis. Acho que é quase impossível encontrar leitores que desconheçam o livro e mesmo que não tenham lido a maravilhosa história de Bentinho e Capitu sabem o valor literário que a obra representa para o nosso país. Confesso que essa, dentre todas as composições do mundo da literatura, foi a que mais me marcou como leitor, afirmo ser a de minha preferência. Entretanto, aqui não irei tratar diretamente sobre ''Dom Casmurro'' de Machado de Assis, sim da história de Bentinho inteiramente renovada. Será? Bom, pelo menos é isto que a sinopse de ''Dom Casmurro e os Discos Voadores'' propõe. Venham comigo então que eu conto pra vocês um pouquinho melhor o que encontrei nesse enredo renovado por Lúcio Manfredi.


Título: Dom Casmurro e os Discos Voadores
Autor: Lúcio Manfredi
Publicação: 2010
Editora: LeYa
Gênero: Literatura Nacional - Ficção Cientifica
Páginas: 264


Sinopse: A personagem Capitu, de Machado de Assis, tinha como principal característica os dissimulados olhos de ressaca. Nesta versão de 'Dom Casmurro', o mistério por trás dos olhos de Capitu vai além, está diretamente ligado ao mar. A trama romântica sofre a interferência de seres alienígenas e androides, disfarçados sob os personagens originais de Machado. Cabe ao leitor, identificar quem é quem. Bentinho não está apenas envolvido no triângulo amoroso, mas numa disputa de forças intergalácticas. Um combate entre as evoluídas civilizações reptiliana e aquática, que habitam o planeta Terra há milhões de anos.


Bom galera, não preciso nem dizer o quanto o autor foi corajoso ao reescrever o enredo de um dos mestres da literatura brasileira, não é mesmo? Quando fiquei sabendo da proposta da obra em si, confesso que achei esquisito e diferente. Seria inimaginável ''Dom Casmurro'' voltado para o fantástico. Seria arriscado demais mexer em algo de formosura tão perfeita e trocar o sentido de tantas coisas envolvidas. Então, preferi não dizer nada sem antes ter a certeza do que realmente seria mostrado ao leitor.

Um livro que pode desagradar os fãs de Machado e ''Dom Casmurro''.

As mudanças inicialmente são bem notórias mas não porque o contexto tenha sido todo modificado — pois não foi, grande parte dele foi mantido como no original —, sim pelo fato de o enredo mostrar alguns pontos bem cômicos. Não há como entender como blasfêmia, muito pelo contrário, certamente o encantamento de Manfredi por Machado de Assis o tenha feito encarar a obra de um ponto de vista bem distinto mas respeitável. A sua escrita é muito bonita mas não é possível defini-la pois se assemelhar bastante com a de Machado. É certo que seria necessário manter o estilo do próprio original para que a obra não ganhasse uma rota inteiramente desconexa da realidade que ela exibe. 

''Moral da história, crianças: apaixonar-se por uma mulher que não é humana faz mal pra saúde (...) Mas antes, preciso arrematar a história do disco que o meu tio viu voando sobre o céu do Rio de Janeiro.''

Há uma interação entre autor e leitor que flui de maneira muito agradável, assim como foram bem agradáveis e representativas as mudanças anunciadas, que começam logo nos primeiros capítulos. Tio Cosme, um lunático que via discos voadores? José Dias com andar mecânico e voz metálica? Isto mesmo! Novidades que não foram tão exageradas assim e que, confesso, não me surpreenderam tanto. Eu esperava mais. Assim como alguns leitores também criaram uma expectativa bem maior sobre essa ''nova roupagem'' trazida ao clássico. Mas no geral, era praticamente difícil de se imaginar ''Dom Casmurro'' contado dessa forma. Não foi ruim.

Mesmo com grande parte do enredo original sendo mantido, para um clássico o mínimo de mudança já seria mesmo o suficiente para acarretar algum sobressalto no leitor. Alguns trechos apresentam umas proporção digna de suspense e fantasia. Outros se tornaram divertidos e alguns bem melancólicos e líricos. Mas uma dica muito importante para quem ainda não leu e pretende ler essa versão apresentada por Lúcio Manfredi é que não iniciem a leitura com o interesse de encontrar essas diferenças como se o livro fosse o famoso jogo dos 7 erros. Lembre-se que aqui não há erros ou acertos, há uma história quase totalmente nova para ser transmitida. Sinta-se à vontade para dar uma chance ao enredo e entenda-o como uma novidade. Será impossível não enxergar as diferenças mas este não deve ser o objetivo do leitor. 

''(...) Estaria José Dias indo fazer um pacto com o diabo? Para oferecer a alma em troca do quê? Eu, pelo menos, saberia muito bem o que pedir ao Tinhoso: que me livrasse de vez do bendito seminário.''
O título de alguns capítulos de ''Dom Casmurro e os Discos Voadores'' foram mantidos como no clássico de Machado de Assis. Mesmo não optando por encarar as diferenças e semelhanças o leitor conhecedor do original acaba criando as comparações.

Os assuntos abordados no livro são bem variados para um romance juvenil mas acredito que o principal esteja mesmo focado nos mistérios sobre Capitu. 

''Eu nunca o traí Bentinho (...) Sei que não me acredita. Talvez nunca venha a acreditar. Pode ser que eu não tenha lhe dito tudo (...) fui projetada desde o início para que você me amasse. Cada detalhe, da minha aparência à minha personalidade, foi programado para tocar e responder aos seus desejos.''

Mesmo no meio de tanta novidade e curtindo o ar de ficção que, sem dúvida, é explícito no livro, consegui sentir muitas das mesmas sensações prazerosas que senti quando li a obra pela primeira vez há anos. Bentinho desta vez parece expor os seus sentimentos para o leitor de uma maneira mais aberta e até mesmo amadurecida, sem muitos rodeios ou vergonha — tanto na fase juvenil quanto na fase adulta. 

''Mas no quintal de Capitu não havia lágrimas, e sim um sorriso duplo, meu e dela. O meu, garanto que era não só genuíno como até meio abobado. Sei que não preciso me explicar. Se o meu leitor for humano, deve ter se apaixonado alguma vez na vida e entende perfeitamente do que estou falando.''

A capa do livro é belíssima e a figura é em relevo. A diagramação segue o exemplo das clássicas e o título vem a calhar com o romance escrito por Manfredi. A editora e o autor estão de parabéns pelas escolhas e produção.

Acredito que para a nova geração de leitores o livro ''Dom Casmurro e os Discos Voadores'' será uma ótima escolha mas acarretará, em alguns casos, um desmérito da obra-prima original. Alguns leitores nacionais não sabem diferenciar o que é apresentado ao público, esta é a verdade. Preferem vedar os olhos e enxergar somente o que querem. Desta maneira, considero que o autor tenha mesmo a intenção de engrandecer ainda mais a obra de Machado de Assis como meio de homenageá-lo mas acaba conduzindo o clássico a um esquecimento importuno por parte de alguns leitores, mesmo que momentaneamente. Mas à parte, a história é boa e a ousadia do autor precisa ser aplaudida.


Autor Lúcio Manfredi

Em uma entrevista cedida a Livraria Folha, o autor deixou claro as mensagens que realmente queria expor em sua história. Manfredi afirmou ter um profundo respeito por "Dom Casmurro" e somente queria escrever uma versão que preservasse os elementos essenciais da obra só que transpostos para um novo contexto, o fantástico. Ele disse que há várias referências escondidas no livro — de obras e de autores clássicos da ficção científica, filmes e seriados de TV — e ainda fez uma definição perfeita sobre a obra original: "Dom Casmurro" desenvolve alguns temas que me são caros, como até que ponto podemos conhecer outra pessoa, até que ponto podemos conhecer de fato a nós mesmos e até que ponto podemos saber o que é ou não real. Todos esses temas continuam presentes na minha versão, com a diferença de que agora eles são retrabalhados dentro da perspectiva da ficção científica".

Para finalizar, digo que o o enredo é muito bom e o livro agradável mas não chegou a me empolgar tanto. Como fã de Machado de Assis e ''Dom Casmurro'' talvez eu tenha fechado um pouco a mente para aceitar a proposta de Lúcio Manfredi. Mesmo assim, recomendo seu livro. Acredito que não levando em consideração esse quesito, a história merece e deve ser aceita e indicada a outros leitores sim. A classifico com 4 estrelas. Enredo coerente, ousado e leitura muito tranquila. Não contei mais coisas sobre o livro para não estragar algumas surpresas que achei interessantes para vocês que vão lê-lo.



A todos que me acompanham por aqui, deixo o meu abraço e o meu agradecimento. Estou no aguardo de suas opiniões que sempre são essenciais.

Valeu, até a próxima!!!


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8 comentários:

  1. Nossa li esse livro a anos saudade linda resenha uhuuuuu

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  2. Oi Beta, você leu este livro anunciado na resenha ou o ''Dom Casmurro'' original? São livros diferentes.

    Obrigado.

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  3. Resenha muito bem feita como sempre! A comparação entre o original e essa versão do Manfredi é inevitável, mesmo sem querer o leitor acabará fazendo a comparação. Parabéns ao Lucio Manfredi pela ousadia. Grande abraço.

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  4. Verdade Luciano. A comparação será inevitável.

    Obrigado mais uma vez pela presença marcante no Blog.

    Valeu!!! :)

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  5. Confesso que admirei ao autor pela ousadia em se lançar em um texto tão inquisidor que leva o ser humano aos limites da racionalidade e ao mesmo tempo, o conduz a sua perda.Claro que o autor deu uma mudada em alguns pontos como nos diz o resenhista. Parabéns o resenhista, pois se ousou também na apresentação de tal livro.

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  6. \m/ Geeeeeh, você por aqui novamente, que legal!! Agradeço por expor aqui sua opinião.

    Obrigado!!! Realmente o autor foi de extrema ousadia. Isto é para poucos. Parabéns a ele por isso.

    Beijos.

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  7. Léo adoro Dom Casmurro fiquei super interessada nesta versão com discos voadores deve ser super legal. Adorei sua resenha e concordo que o autor foi super ousado. Beijos!!!

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  8. ;) ;) ;) Luh, a proposta do livro é bacana. Recomendo sim, quando puder, leia.

    Beijos e obrigado por sua opinião.

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:) :( ;) :D :-/ :P :-O X( :7 B-) :-S :(( :)) :| :-B ~X( L-) (:| =D7 @-) :-w 7:P \m/ :-q :-bd