domingo, 19 de junho de 2016

''O Caranguejo do Saara'', as memórias autobiográficas do jornalista Julio Cruz Neto

Recentemente o livro ''O Caranguejo do Saara'' do jornalista, documentarista, escritor e autor Julio Cruz Neto teve a sua 2ª edição lançada pelo Clube Select e o Marcas Literárias teve a honra de conferir o material e embarcar com o autor em uma aventura que além de muitas inusitadas situações mostra as faces de uma cultura cheia de contrastes e ainda ligeiramente deixada de lado.


Título: O Caranguejo do Saara
Subtítulo: A África que encontrei nas minhas coberturas do Rali Paris-Dakar
Autor: Julio Cruz Neto
Publicação: 2016
Editora: Clube de Autores - Selo Clube Select
Gênero: Turismo, Memórias autobiográficas
Páginas: 117


Sinopse: 'O caranguejo do Saara' é um livro de memórias de um jornalista que cobriu por duas vezes o Rally Paris-Dakar. É um relato sobre a experiência de cruzar o deserto, sobre os bastidores da competição quando ainda era disputada na África. ilustrado por fotografias tiradas pelo autor.

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Os relatos do livro são referentes às competições dos ralis Granada-Dakar, em janeiro de 1999 e Dakar-Cairo em 2000. As experiências de Julio Cruz Neto revelam, primeiramente através das lentes fotográficas, o contraste em muitos aspectos. Os olhares da máquina e do jornalista avançam de um lado ao outro de maneira cautelosa evidenciando a riqueza de detalhes naqueles que pouco tem. Percorre o corpo das mulheres desnudas da cintura pra cima que levam no corpo parte da cultura de seu povo e carregam no olhar honesto, atento e sofrido, os traços de sofrimento de uma geração ainda marcada pelo descaso. Alguns lugares são calmos, secos e solitários e descobrir as horas torna-se quase impossível. Tropeçar em ossadas de animais ou em pequenos grupos de pessoas ermas que parecem esperar a morte chegar enquanto facultam seus corpos no sol, é o mais comum. ''Tirando a mulher com o menino enfermo, os outros querem mais é matar a curiosidade, ver e ser vistos, olhar para a lente e deixar registrado seu visual. Os homens de turbante e longas vestes, os meninos de cabelo curtinho, quase nada, e camisetas velhas, desbotadas, pano de chão em casa de rico. As meninas exibem as cores da África, bijuterias a perder de vista... Cada um à sua maneira, parecem todos entusiasmados.''

O livro é um verdadeiro intercâmbio cultural. Julio enfrentou pelo caminho situações difíceis que nem todo jornalista e capaz de encarar. Encontrou um meio de expor o seu lado mais humano para observar a realidade de outros povos que, em meio a vida precária, ainda sim conseguiam demonstrar simpatia. ''O Caranguejo do Saara'' não representa, por eixo central, as aventuras da competição do Rali Paris-Darkar, o seu contexto vai muito adiante. Em meio as diversas novidades que ia encontrando — algumas bem prazerosas e engraçadas como as trapalhadas de pegar alguns voos errados e retornar à cidade anterior — o jornalista se deparou também com outras bem desagradáveis, como o velho e conhecido racismo de tantas outras histórias, terroristas e ladrões no deserto.

Slide com algumas fotos da obra.

Julio convida o leitor a viajar também através de suas palavras simples, leves, objetivas e bem poéticas, demonstrando muito carisma. Uma escrita realmente belíssima e apreciável. A leitura, por ser tão atrativa, acontece ''num piscar de olhos'' e tudo se passa ligeiro, avesso à vontade de muitos moradores daquelas regiões africanas que, inegavelmente, preferiam que seus momentos diferentes e animados com os visitantes do rali se prolongassem mais. 

O autor, antes jornalista iniciante, descobre que para um homem, viajar é necessário, viajar por sua conta própria para que se quebre a tal arrogância que lhe faz ver o mundo somente como ele pensa que é e não como ele é de fato, como escreveu Amyr Klink em seu livro ''Mar sem fim''. ''Numa das paradas, surge um arco-íris de mulheres caminhando em nossa direção. Parecem vir de nenhum lugar e seguir para lugar algum, todas as cinco vestidas da cabeça aos pés com indumentárias de cor única. Preto, azul, amarelo, preto de novo e rosa choque.'' Muitos outros pontos também são observados por Julio e anotados direitinho em suas memórias. A solidariedade entre os competidores era forte e eles se dedicavam no auxílio que prestavam aos amigos quando necessário. No primeiro dia é você quem pede, no segundo já te perguntam e no ano seguinte é você quem pratica os atos de amparo para os novatos. Julio realmente aproveitou todo o momento que teve enquanto os pilotos se ocupavam com a competição para nos mostrar um pouquinho mais de uma África que ainda desconhecemos. 

Os contrastes são fortes e o rali provoca ainda mais alguns. De um lado, na correria, os que estão de passagem com suas máquinas paradas que ao canto descansam seus corações mecânicos, de outro, no mormaço, os que nascem, moram e ficam, descalços, na pobreza, empurrando suas bicicletas velhas e quase inúteis. Além disso, ''dois tuaregues têm outros traços em comum. Um deles é o contraste entre a pele muito negra e brilhosa do rosto, que chega a refletir os raios solares, e os pés, que em contato com a poeira desde o parto, não têm mais cor, têm cor de chão, são como raízes ligando os homens à terra onde aprenderam a sobreviver.''

Os pilotos precisam ter pressa. Pressa em seus objetivos, um ponto a chegar. Assim como eles, o continente africano a todo o momento da história teve pressa. Mais um contraste dentre tantos outros que encontrei em meio ao contexto que o autor me envolveu. O mundo também deveria ter pressa. Pressa em conquistar direitos que sejam realmente igualitários aos povos. As nações têm o direito de viver em boas condições humanas. Têm mas nem todas podem usá-lo. O continente africano tem pressa. O etnocentrismo — visão de mundo característica daqueles que consideram o seu grupo étnico, nação ou nacionalidade socialmente mais importante do que os demais, retratando a do próximo como algo menor, sem valor e primitivo — deve terminar. Esse fenômeno universal tem proporções drásticas quando culturas mais frágeis entram em contato com culturas mais dominantes. É isto que ainda acontece no mundo. ''O Caranguejo do Saara'' ajudou muito a aprimorar meus conhecimentos e a formar um pensamento anti-etnocentrista. Mais uma vez é preciso reafirmar que somos todos iguais. Esta é mais uma leitura que poderei levar para toda a vida.

Esta 2ª edição do livro, conta com os fatos mais marcantes da história do Dakar, novos trechos, uma quantidade maior de fotos e um material excelente apresentado pelo Clube Select. Está tudo impecável. As folhas são lisas, a capa e contracapa apresentam orelhas e a diagramação está perfeita, preenchida com muitas fotografias que expressam muito bem as viagens completando o conteúdo narrado e, mesmo que Julio não reproduzisse com perfeição as suas lembranças de forma escrita, as fotos fariam isso por si sós. O livro é atraente e o material inveja muitas outras produções.

''O Caranguejo do Saara'' é recomendado para todas as idades e que pode e deve ser utilizado entre alunos do Ensino Fundamental pela importância sociocultural implantada no enredo. O jornalista e autor Julio Cruz Neto está de parabéns. 5 estrelas e livro FAVORITADO.

É excelente e foi FAVORITADO

''A África ainda não se recuperou de tantos séculos de atraso e exploração. Alguns países são mais desenvolvidos, conseguem até sediar uma Copa do Mundo. Mas por onde eu passei, a miséria e o desrespeito aos direitos humanos e sociais mais elementares reinam absolutos, a dignidade passa longe. As pessoas não moram, tem habitat. Não tem endereço, nem sequer podem receber uma foto pelo correio para guardar uma lembrança da passagem do rali. Eu tenho vinte álbuns, retratando centenas de cidadãos que não têm uma imagem de si mesmos. Naquele tempo em que se usava negativo, não dava para mostrar a foto na hora [...] Faziam mil poses, com todo a boa vontade do mundo, e não viam nada. Vivem ainda num passado muito presente e desolador, sem informação, anestesiados pela ignorância, pela falta de parâmetro.''

EMOCIONANTE, não acham galera? Essa foi a resenha de hoje. Eu achei o livro FANTÁSTICO. Aguardei ansioso a chegada do material para que pudesse transmitir a vocês isso tudo pois sabia que o conteúdo ia me surpreender. Comprem, vocês não vão se arrepender.

Agradecimentos especiais ao autor Julio Cruz Neto e ao Rafael Navarro que foram super atenciosos e me recebeu em nome do Marcas Literárias disponibilizando o livro. Obrigado pela confiança e apreço. 

A todos, um forte abraço e até a próxima.




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6 comentários:

  1. Resenha fantástica Leonardo! Como sempre mandaste muito bem ao elaborá-la. É muito triste em pleno século 21 o continente africano ainda viver em condições tão precárias e desumanas na maior parte do enorme território da África. O livro mostra essa realidade tão vergonhosa e deprimente desse povo sofredor, porém mostra a garra e o jeito alegre que somente o povo de origem africana tem em seus genes, a alegria está enraizada em suas almas. Muito legal o autor revelar detalhes do maior rali do mundo em um opúsculo maravilhoso e fundamental para nossa reflexão. Para mim que sou um apaixonado por automobilismo esse livro cairá como uma luva em minha coleção literária. Parabéns ao autor pela majestosa obra e a você pela magnífica resenha. Forte abraço!

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    1. Luciano, concordo com sua visão e realmente em pleno século 21 presenciamos nações que ainda estão nessa precária situação. É lamentável. Julio fez bem em expor tudo isso, é altamente necessário.

      Adorei o livro, pra mim é uma excelência literária.

      Abraços.

      :)

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  2. Sabemos que África é um dos continentes mais pobres de todo o tempo, no qual as doenças, fome vírus e tantos outros problemas os perseguem.
    Temos que agradecer ao Júlio por poder mostrar essa África esquecida por muitos. Uma realidade tão dolorosa e triste. Nessas horas me coloco a pensar e percebo que por muitas vezes reclamamos do que temos e do que não temos.
    Os Africanos que por dificuldades passam, não reclamam da comida que tem o que eles querem é matar a sua fome, e não reclama da roupa que tem a vestir, o que querem é algo que lhe agasalhe e o protege do frio. E percebo quão egoísta somos. Não queremos tal roupa ou tal comida reclamamos sem necessidade. Os africanos não tem escolha e diante de suas necessidades, não escolhem aceitam apenas. Querem apenas uma vida, vida que lhes é negada.
    Interessante mesmo é o poder que a escrita tem... Estamos levando a nossa vida, e de repente nos apresentam um livro desses que nos tira de nossa zona de conforto, e nos faz pensar na desigualdade existente, e nos colocamos no lugar do outro e por vezes tentamos refletir e ver o que de fato estamos fazendo , e se de fato estamos assumindo o papel de cidadãos.
    Belíssima resenha moço, parabéns!

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    1. Perfeita visão minha querida. Certamente este é um grande problema do ser humano, pratiamente todos têm o costume de dizer que as suas vidas são ruins mas falam isso sem terem conhecido de perto a verdadeira face da desigualdade, miséria e sollidão. O descaso com o continente africano não é de hoje e Neto nos atentou novamente a este grande menosprezo mundial.

      Beijos.

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  3. Oi, Léo! Tudo bem?

    Cara, de verdade, você arrasou nesta resenha com tamanha carga de informação brilhante, senão espetacular deste livro que não conhecia, mas pela maneira que o descreveste, já me fez ficar encantado. Parabéns!

    A Africa ainda é uma país assolado por uma questão social universal que muito nos entristece e nos deixa com conflitos de emoções, mas acredito que em um futuro não tão distante, isso venha a mudar e viveremos um mundo melhor.

    Beijão,
    Danny

    Irmãos Livreiros

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    1. Danny, prazer te rever por aqui.

      Fico muito contente quando encontro pessoas com o mesmo pensamento que o teu, pois apesar do quadro na África ser assim há tempos, é preciso acreditar que num futuro a situação possa estar menos desfavorável àquele povo.

      Muito obrigado por compartilhar com a gente o seu pensamento.

      :)

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