quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Um país em opressão, um ''Encarcerado'' sem nome e um romance de extrema significância; Veja obra de Lílian Fleury Dória, Giostri Editora

O artigo de hoje é destinado ao livro ''Encarcerado'' publicado pela Giostri Editora e escrito pela autora mineira Lílian Fleury Dória, professora do Curso de Artes Cênicas da Faculdade de Artes do Paraná, UNESPAR, por 30 anos. Diretora de teatro, atriz e produtora. Graduação em Filosofia e em Arquitetura e Urbanismo, mestrado em Literatura Brasileira pela UFPR e doutora em Cinema e Literatura pela UNICAMP. 



Título: Encarcerado
Autor: Lílian Fleury Dória
Publicação: 2016
Editora: Giostri
Páginas: 172


Sinopse: O período do governo do general Ernesto Geisel é aquele em que o país está vivendo o primeiro desabrochar depois dos anos duros de ditadura. Claro, ainda não estamos no país ideal, mas estamos em um país que, já naquela época, anunciava ambiguidades. Uma delas era a forma como o sistema penitenciário funcionava e a quantidade de presos, políticos ou não, que foram retidos sem “provas” suficientes. O protagonista está entre eles.



A escrita da autora é aprimorada ao máximo; simplesmente impressionante. A harmonia na fluência da leitura exerce uma agradável sensação de contentamento no leitor. Sem dúvidas, nesse artigo será necessário frisar o quanto antes que a obra repercutiu neste que vos fala, uma levada significante de ponderações sobre o seu verdadeiro intento, deslocando os conceitos sobre a época narrada a um patamar mais elevado de sapiência histórica nacional e comportamental humana.  O desenvolvimento do enredo é incrível. A autora é sem dúvida muito inteligente. Impossível não ter este produto final como um dos favoritos num imenso acervo onde somente os lapidados de maneira mais emérita se encontrarão. A obra é maravilhosa e pode ser que você queira relê-la inúmeras vezes à procura da verdadeira chave que abre a compreensão do seu verdadeiro eu.

A história, desde o seu início, deixa o leitor bastante incomodado por trazer à tona a retratação de uma mente extremamente perturbada durante os anos de ditadura no Brasil. Isso é apresentado de maneira agressiva e às vezes poética, unindo diversas anfibolias de um personagem sem nome e vestido de características vultosas que lhe dão mais vida e forma do que qualquer outro herói ou anti-herói nomeado. A dilaceração de seu íntimo ao entregar-se a polícia e julgar-se culpado por um crime que diz ter cometido mas que não consegue lembrar-se de como teria feito tal ação, revelam fortes distorções psicológicas que aparecerão continuamente no romance. A admiração quase que coerciva por Fiódor Dostoiévski — escritor russo que lhe causa alacridade — e a escolha de três obras suas, elucidam no personagem sem nome, uma natureza estranha que chama a atenção daquele que lê, e dá ao mesmo o desejo de descobri-lo por completo.




O leitor sente a partir dos primeiros momentos que não poderá mais sair das cenas que lê, vê e imagina, sem antes ter chegado até a última linha desse enigmático romance social, para descobrir, no meio de tantas conturbações dos últimos instantes da época ditatorial do Brasil (1964–1985), a verdadeira identidade de um indivíduo aprisionado a sabe-se lá o que ou a quem, que constantemente interpreta a si mesmo dentro de uma linha incoerente de raciocínio. Um amante fiel da vida literária que escreve o seu próprio romance russo para viver suas narrativas amarrando-as as do grande Fiódor, à frente de personagens amargos, cheiro de medo, angústias e incertezas. A escolha dos três livros que o personagem levou para o cárcere diz muito ou talvez tudo sobre o seu ego. ''O prisioneiro sente uma ternura que o emociona. Algo nessa historia diz muito a ele, mas ainda não entende, pois ainda não se recorda de nada, nem mesmo do seu próprio nome''.

Em meio as enchentes vividas pela cidade de São Paulo e crises sociais da época — e, por que não dizer dos dias modernos também? —, a autora retrata as condições terríveis das penitenciárias do Brasil durante o governo exercido naqueles anos. ''As celas tinham péssimas condições de salubridade, mofo e limo nas paredes, Em alguns pontos havia água infiltrada. Baratas e ratos eram companheiros dos prisioneiros nas celas escuras. Para o nosso personagem, isolado em sua estranheza, restava o pior canto para dormir''. O desenvolvimento sobre o psíquico do encarcerado é intenso e as sensações são verdadeiras. O leitor se encontra em um verdadeiro labirinto junto ao prisioneiro e sua prisão física e mental. Na verdade, sua própria psicologia é um labirinto destruidor. A ditadura teve como um dos seus frutos essa desordem intelectiva da sociedade. As ideologias presas geravam atos destrutivos ao próprio indivíduo. O reflexo na sociedade surgia através da luta constante pela justiça social.

Ler ''Encarcerado'' é remeter-se aos anos sombrios, à década de opressão nacional; é interpretar-se no próprio personagem e subsidiá-lo ao encontro do seu próprio eu, participando do novelo e entregando-se nu e cru a um romance versado com atributos históricos nacionais. Uma leitura agradável; uma escrita apreciável; um conteúdo avassalador com referências sintomáticas. A beleza encontrada nas páginas do romance de Lílian Fleury Dória está sobretudo entreligado ao direito de livre arbítrio e expressão, a regra em questionar-se sobre a desordem exterior e interior. ''Talvez vocês não tenham a memória dos anos de chumbo, dos anos de domínio militar. De 1964, ano do golpe, a 1984, ano da Anistia, foram 20 anos de prisões, perseguições, torturas, tensões entre as altas patentes do comando militar insuflados pelos atos terroristas das organizações clandestinas. Vocês são jovens, não viveram esses anos. Não foi fácil''. A instauração da Defensoria Pública no país após esse período é clarificada marcando uma vitória no sistema langoroso nacional. As certezas e incertezas sobre o que é justiça, religião e autodefinição são vestígios claros que as autoridades massacrantes geraram em componentes do corpo social.


Slide de fotos do livro ''Encarcerado'', da autora Lílian Fleury Dória.
Giostri Editora - Parceria
No novelo, as lembranças do encarcerado se misturam uma nas outras e isso lhe dá inspiração para continuar escrevendo, durante os vinte anos que passara preso, o seu romance russo. Diante disso, quer se ver como um Escritor, assim como a sua grande admiração, Dostoiévski. A figura de Jorge, o defensor público que se interessou pelo caso do encarcerado, é a simbologia do resgate. O homem tenta encontrar um caminho lógico para os atos do prisioneiro nos livros de Dostoiévski. ''Todos nós somos russos em nossos sentimentos. Somos um paiol de pólvora pronto a explodir. Não sabemos por que somos assim, tão passionais, totalmente passionais. Não sabemos nada sobre o amor, não sabemos amar, não sabemos quem somos''. Entre um interrogatório e outro descobre-se um personagem enigmático vestido de incertezas; um sem nome que dentro de um romance que reflete obscuridade é usado para discutir várias questões políticas, sociais e ideológicas.



''Encarcerado'' é, na verdade, três romances dentro de um só, que apresenta semelhanças e ambiguidades. O romance de Lílian descreve o do encarcerado que nasceu em razão do de Dostoiévski. O livro é uma verdadeira teia literária que une variáveis num mesmo eixo. Os aspectos estruturais do enredo vibram conforme sua passagem. O ato dos dois tempos que a obra apresenta apontam mudanças assim como repetidos transtornos sociais. No segundo momento, a denúncia desnuda de uma sociedade desigual é pronunciada. Os reflexos do romance russo do encarcerado se deparam com a realidade nas vielas mais miseráveis de São Paulo. A poética desperta em meio aos restos de um país que fora impedido de desfrutar de sua totalidade honesta. O desfecho retrata a genialidade da autora, Cabe ao leitor conhecer-se a si próprio para entender o personagem sem nome e todas as suas ações. O romance social é revelador e provocante, dilacera com facilidade e mesmo a contra gosto, os sentimentos e ideologias daquele que lê. ''Não sabemos de nada. Não sabemos quem somos e nem mesmo para que estamos aqui nesta vida. Somente caminhamos, como estes bandos de meninos e meninas de rua, buscando comida, buscando uma caverna para nos escondermos''.

Espetacular


O Marcas Literárias é parceiro da Giostri Editora. Entre no site e aproveite as novidades. São centenas de títulos incríveis à sua disposição. Encontre este e outros romances maravilhosos no acervo da editora.





Comente com o Facebook:

8 comentários:


  1. Que livro hein! A resenha ficou espetacular, aproveito e parabenizo a autora. Forte abraço Leonardo!

    ResponderExcluir
  2. Valeu Luciano, recomendo que leia esse livro. Vocês tem que adquirirem essa obra. É magnífica!

    ResponderExcluir
  3. Que livro interessante, viajei e adentrei na história me vi tentando decifrar o encarcerado. Fiquei fascina com ideia de três romances dentro de um, com isso muita coisas interessante para se ler.

    Interessante também a ideia de inserir autores tão renomados no romance, com isso mostra de fato a grandiosidade da obra. Fico encantada de como o livro transforma, para os pressos e encarcerados de fato o livro é o remédio, isso é fascinante.
    Continuo gostando da forma como resenhas.

    Bela apresentação. Parabéns!

    ResponderExcluir
  4. Obrigado Geh, valeu!

    Quando puder, compre essa obra. A autora mostrou um genialismo incrível nessa escrita. O resultado final é isso mesmo que foi dito na resenha. Sensacional.

    Obrigado pela visita e comentário.

    Beijos.

    ResponderExcluir
  5. Muito boa a resenha, fiquei com muita vontade de ler ele, vou colocar na lista haha

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Melissa, deixe anotado sim, se quiser pode até fazer com que ele pule a fila rsss, nem vai se arrepender.

      Obrigado pela visita e comentário.

      Excluir
  6. olá Léo,
    Ainda não conhecia esse livro, mas achei bem interessante. Gosto de mentes perturbadas e ler sobre elas me instiga a ler cada vez mais.
    Adorei saber que a escrita é bem aprimorada e mais que anotei a dica para ontem!
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Bruna, eu também adoro leituras do tipo, são bem sedutoras.

      Tenho certeza que você vai adorar o livro.

      Agradeço a sua visita ao Marcas.

      Beijos.

      :)

      Excluir
:) :( ;) :D :-/ :P :-O X( :7 B-) :-S :(( :)) :| :-B ~X( L-) (:| =D7 @-) :-w 7:P \m/ :-q :-bd