sábado, 24 de setembro de 2016

Se preparem, chegou a hora do Apocalipse Zumbi

O artigo de hoje refere-se diretamente ao conteúdo encontrado nas páginas do livro ''Apocalipse Zumbi - Os primeiros anos'' do autor Alexandre Callari, uma publicação da querida Editora Évora. Até onde se sabe, a história não é baseada em nenhum filme ou livro da temática e não chega a ser uma novidade, já que há tempos essa temática ronda o cenário mundial. A novidade de verdade se dá em razão de o livro ser o primeiro a ser publicado no Brasil com esse roteiro já tão conhecido em outras culturas. Apesar de não surpreender ao máximo e talvez não causar o dito medo em alguns leitores, o desenvolvimento é bem criterioso e notável, já que a gama de personagens e os eventos apocalípticos garantem uma boa parcela de inquietação enquanto os fatos são narrados. Na verdade, é injustiça dizer que o volume não agrada embora não chegue a ser tão diferente de situações já vistas em algumas outras atmosferas. Também é muito válido ressaltar que a leitura em si, abraça o leitor e o leva diretamente ao caos social e aos grandes questionamentos da tese: E se for realmente verdade? E se um dia esse apocalipse acontecer? Como cada um reagiria? ''O orgulho é um péssimo substituto para a razão. Hoje não tememos mais a noite porque nos basta acender a luz, porém isso não impede que os pesadelos venham''. De maneira rápida, pontos  interessantes serão revelados e interpretados nas linhas seguintes, me acompanhe. 


Título: Apocalipse Zumbi
Subtítulo: Os Primeiros Anos
Autor: Alexandre Callari
Publicação: 2016
Editora: Editora Évora
Gênero: Ficção, terror
Páginas: 336


Sinopse: Este livro é vendido junto com um CD com a trilha sonora criada exclusivamente para colocar o leitor no clima da aventura. Não perca! O caos reina no mundo. A civilização entrou em colapso. As comunicações, a energia elétrica e a vida em sociedade, como a conhecemos, praticamente se extinguiram. Nem toda nossa tecnologia foi capaz de nos proteger e evitar que dois terços da humanidade morressem. Os poucos que sobreviveram estão exaustos e tentam reunir o que ainda resta das suas forças e recursos para se manterem vivos. E, para piorar, eles não estão a sós. Dia e noite, são perseguidos pelos contaminados - sempre à espreita com seus olhos vermelhos, pele pálida, dentes podres e uma terrível sede de sangue e de carne humana. Nesse cenário de terror e desesperança, Manes luta desesperadamente para manter sua comunidade unida. Ela subsiste em uma construção cercada por paredes de concreto chamada Quartel. Porém, quando alguns de seus membros estão em apuros do lado de fora, sendo cruelmente caçados pelos contaminados, Manes parte para resgatá-los. A sua ausência e a chegada do enigmático Dujas abalam severamente o tênue equilíbrio interno do Quartel, colocando em risco a vida de todos. O perigo e o medo tomarão conta deste, que é um dos poucos redutos em que homens e mulheres vivem em "segurança". Cheio de intrigas, mistério e horror, Apocalipse Zumbi é uma aventura de ficção eletrizante, com muitos elementos de realidade que mexerão com a mente e o coração dos leitores. Alexandre Callari oferece nesta obra o melhor do gênero zumbis e, ao mesmo tempo, cria um mundo à parte, que conta com suas próprias regras e lógica. Bem-vindo ao universo de Apocalipse Zumbi!

Sobre o autor: Alexandre graduou-se em Letras. É escritor, tradutor, palestrante e aficionado por cinema, teatro, televisão e quadrinhos. No passado, também trabalhou com música e artes marciais. É autor de vários livros, dentre eles Apocalipse zumbi - os primeiros anos, desvendando Nelson Rodrigues e a aclamada série Quadrinhos no cinema. Traduziu para o português obras como Conan - o Bárbaro, Nos bastidores do Pink Floyd e Branca de Neve - os contos clássicos, publicadas pela editora Generale. Proprietário de uma coleção de 11 mil quadrinhos antigos, Callari viaja pelo país fazendo exposições das suas edições raras. É editor e apresentador do site Pipoca & Nanquim, com Bruno Zago e Daniel Lopes, em que faz o que realmente adora: falar de cinema e quadrinhos. Atualmente, é um dos editores das revistas DC no Brasil.



Em outrora, histórias repletas de criaturas horripilantes e sanguinárias que correm atrás de humanos para devorarem sua carne na tentativa de mitigar sua fome insaciável, enquanto, desprovidos de seus sentidos mais mortais, eram apenas cenas comuns avistadas nos telões de Hollywood onde os efeitos, embora até bem articulados, não levavam para os mais céticos todo o ar assombroso que se esperava. Isso sempre foi muito comum também em obras de consagrados autores estrangeiros que adoravam criar ou recriar modelos comuns de zumbis. Uns tentavam inovar dando aos esfomeados novas características e funções que lhe permitiam ser mais poderosos ainda, como ao estilo dos vampiros, que vez ou outra surpreendem seus fãs mostrando-lhes novas habilidades. Mas o fato é que, com a clássica novela dos zumbis e toda a sua teia já formada e elucidada, o que sempre se espera é basicamente a mesma coisa, um bando de comilões vagando inconscientemente por horas em busca de comida — os humanos, os sobreviventes.

Em  ''Apocalipse Zumbi'', um quadro muito mais abrangente é utilizado no enredo e o caos é soberano no mundo. O autor enriquece a sua obra desprendendo todos — ou quase todos — os componentes que antes, em outros enredos, geravam uma história óbvia por completo. Mas como já dito anteriormente, não, nem tudo é exatamente diferente na obra de Alexandre Callari. Há o que o principio do gênero pede, o bom e velho terror incorporado nas páginas ensaguentadas do Apocalipse; a velha e já conhecida matança; e muita carne viva sendo devorada, em consequência a isso, um amontoado de corpos pelo chão e uma visível catástrofe.

''Apocalipse Zumbi - Os primeiros anos'', autor Alexandre Callari.

Mas é fato que, o que é apresentado nesse volume, em grande proporção, é a mescla perfeita de um universo horripilante junto a dubiedade social, intelectual e privativa. Para aqueles que adoram muita ação e desespero contados de maneira formidável, o entretenimento e a admiração pelo autor e obra serão ingredientes de um prato para se comer salivando. Mesmo àqueles que não se sentem atraídos pelo gênero e contexto, ficarão impedidos de sequer esboçar uma tentativa para encontrar pontos ruins na evolução do enredo, que se faz efetivamente excelente. Alexandre Callari carrega em sua escrita o ar terminável e extremo que todos os apaixonados pela categoria precisam, embora se expresse com muita tranquilidade e objetividade.

Grande parte da população acredita até hoje que esse temível momento em que a raça humana viverá o duelo contra a formação zumbi, chegará, e é nesse ritmo avassalador e extasiado que o autor carrega leitor e personagens. O conceito é formado por alguns termos mas todos com finalidades semelhantes: sufoco, sobrevivência, coragem, atitude. ''Os olhos, duas piscinas límpidas caminham nervosos de um lado para o outro, comprimidos pela tensão do momento, e a ofegação do momento faz com que o seu peito magro infle por sob a roupa. Fios de cabelo amarelos como ouro, maltratados pelo excesso de tintura, grudam em sua testa suada, repleta de marcas de expressão. Quando eles correm, é uma das coisas mais feias de se ver, pois, à primeira impressão, você pensa que eles não têm mais o controle do próprio corpo por causa da maneira como se movem, com os braços moles e largados, atropelando tudo o que estiver pela frente.''


As imagens no livro são incríveis.

A situação tensa e crítica dos personagens é narrada de uma forma múltipla que encanta o leitor quando observa a qualidade e talento de Alexandre Callari. Como mensagens importantes no pano de fundo do babélico enredo apocalíptico, a quebra da ordem social e a aceitação de convívio em uma sociedade, agora, problemática e preconceituosa em dobro, são bem apresentadas. A imagem do caos, do mundo sem regras — porém cheio de preocupações —, e a falta de confiança no próximo é retratada de maneira brilhante pelo autor.

''A situação era crítica. De repente, deu um tranco para trás com o tronco e, demonstrando uma fora acima da média, libertou-se das mãos que o prendiam. Um verdadeiro animal, ele saltou sobre o rapaz, que inutilmente tentou se defender. Tudo foi rápido, selvagem e brutal, e as pessoas, atônitas, não acreditavam no que viam [...] Fui humilhada publicamente em mais de uma ocasião, submetida a um ridículo julgamento informal e obrigada a concordar em não manifestar em público minhas preferências sexuais. A desculpa é para evitar conflitos com quem não aceita nossa escolha.''

As pessoalidades no ''Apocalipse Zumbi'' conquistam, apesar do desespero e desconfiança em suas faces cansadas. A falta de certeza no próximo dia é o que mais chama a atenção. O duelo contra os mortos-vivos reverbera exatamente essa conquista territorial de ambos os lados. A disparidade entre objetivos é apenas um mero detalhe. O verdadeiro confronto é, e se forma, contra os preceitos de civilização. A sociedade e suas normas e condutas são devastadas ao máximo e o que resta é somente o terror, em todos os sentidos.



A estrutura que Alexandre Callari escolhe para dar seguimento em sua obra original, o deixa bastante distenso quando se pensa em possibilidades de exploração. A apresentação do Quartel — baluarte em que um grupo de sobreviventes se refugia após o colapso da sociedade — permite que o autor trabalhe melhor no psicológico e comportamento de alguns personagens, os participantes ativos e protagonistas, além de poder representar o local como a única defesa contra os infectados. Será mesmo? O que pode se dizer de momento para que trechos consideráveis não sejam revelados é que o suspense acompanha todo o horror instalado no apocalipse e deixa a obra num clima ainda mais acentuado nesse mundo nada convencional retratado pelo autor, que ainda pinta o retrato filosófico em diversas ocasiões, demonstrando, além da apurada capacidade e técnica em ditar o terror em suas mais variadas categorias — horror e psicológico, por exemplo —, naturalidade para expor ponderações que, às vezes, causam prontas divergências.

''Todos os homens procuram alguma maneira de afirmar sua masculinidade, seja menta ou fisicamente. Alguns se provam por meio de sua capacidade de criar teoremas e fórmulas, outros jogando xadrez. Há os que se afirmam por serem exímios esportistas e também os que simplesmente demonstram uma capacidade sexual acima da média.''

O final, deixado em aberto para a continuação que o autor trará aos fãs, deixa claro a manifestação do que é louvável, atraindo e incitando o leitor a querer continuar no universo horripilante dos morto-vivos. Mas, se toda essa infestação de zumbis em escala catastrófica reproduz um cenário apocalíptico cheio de mortes e horror onde o psicológico é, na verdade, o seu pior inimigo, por que então desejar prosseguir para o próximo volume? Os leitores desse primeiro volume saberão exatamente a resposta para essa pergunta. Sem dúvida, o livro é um enunciado de sombrios pesadelos e pensamentos,  pois afinal, como a raça humana reagiria aos ataques dos mortos-vivos? Qual seria o comportamento dos sobreviventes em uma sociedade sem ordem e lei? E, como fariam para combater o mal inoportuno que acaso pudesse estar instalado até mesmo nos locais imaginados seguros? Essas e outras charadas serão cruciais para o leitor enquanto o mesmo organiza os seus fundamentos durante a leitura. Sem contar que as belíssimas imagens em estilo quadrinhos pulp fiction dispostas no volume, deixam o leitor ainda mais no clima da história e abrilhanta a obra. ''Apocalipse Zumbi - Os primeiros anos'' seria pra deixar preocupados os grandes nomes internacionais que escrevem o gênero, mas para as letras não cabem essa rivalidade para evidenciar quem é melhor do que quem. O que vale é o acréscimo e, dessa forma, esse nacional passa a integrar esse cenário já bem construído tão longe daqui.



A sensação é de pura excitação ao término da leitura do volume. Essa coqueluche estrangeira, agora, bem escrita e simbolizando os conceitos políticos e sociais do território brasileiro, demonstra o quanto de viabilidade ainda há disposta para o aperfeiçoamento do gênero, ainda que o velho palpite de parecença possa ser empregado para designar tal feito. A decadência moral, individual, política e social narradas na ficção servem ao extremo como confrontação imediata da realidade fora do universo dos mortos-vivos. O psicológico entra em jogo a todo o momento e estimula a vontade do leitor em conhecer cada pedacinho dos personagens, alguns causam repulsa, verdade seja dita, mas outros são apaixonantes. A beleza do livro está justamente neste ponto condizente a manifestação dos padrões políticos inseridos no horror caótico responsável pelo choque imediato no leitor. Como opinião pessoal, por não ser adepto do mundo dos zumbis, trataria o livro com pouca atenção, mas não foi o que aconteceu. Com efeito, ''Apocalipse Zumbi'' individualiza a forma coesa e resoluta na escrita de Alexandre Callari e contextualiza as individualidades apresentadas em seu enredo. É um livro para se recomendar, sem medo, ''afinal, como todos sabemos, os mortos-vivos sempre se recusam a um descanso eterno e acabam retornando para a superfície. Pois, quando não haver mais espaço no inferno, os mortos caminharão sobre a terra...''. Quatro estrelas na classificação.

Realmente, o livro é muito bom


Sobre o material: O livro tem orelhas, folhas amareladas com uma textura muito agradável e imagens perfeitas no decorrer da história. A diagramação não agrada muito por motivo das letras pequenas, sendo este o único revés nessa maravilhosa edição da Editora Évora. Também é acompanhado de um CD com a trilha sonora do enredo, uma ótima interação do leitor com a ambientação narrada. Mais uma vez, Editora Évora arrasou em sua publicação.


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2 comentários:


  1. Muito boa a sua análise do livro. O legal do livro, me parece as imagens ilustradas em seu interior, esse pequeno detalhe dá um charme a mais no livro. Sobre o tema em si, sobre zumbis, eu particularmente não gosto, nem a famosa serie de TV, chamada THE WALKING DEAD consegue me conquistar. Porém é sempre bom, fugir da zona de conforto, e esse livro parece uma boa dica. Forte abraço!

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    1. Também não sou adepto, mas certamente suas palavras são corretas. A obra é muito boa e a leitura recomendada.

      Abraços.

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